Um levantamento realizado pelo VGN, sobre os salários da cúpula da Polícia Civil de Mato Grosso em 2025 expõe não apenas a magnitude dos vencimentos recebidos pelos ocupantes dos principais cargos da corporação, mas também uma significativa disparidade salarial entre homens e mulheres. Os 21 delegados e delegadas que comandam diretorias, coordenadorias e assessorias estratégicas receberam, juntos, R$ 20,8 milhões ao longo do ano.
A análise dos contracheques mensais de janeiro a dezembro de 2025 revela que os delegados homens receberam, em média, R$ 1.005.960,22, enquanto as delegadas mulheres tiveram média salarial de R$ 946.866,20 – uma diferença de R$ 59.094,02, equivalente a 6,2% a mais para os homens. A disparidade se reflete também na ocupação dos cargos de comando: dos 21 postos de liderança analisados, apenas quatro (19%) são ocupados por mulheres.
Secretário de Justiça lidera ranking com R$ 1,3 milhão
O delegado Vitor Hugo Bruzulato Teixeira, atual secretário de Justiça e Segurança Pública de Mato Grosso, lidera o ranking de remunerações com R$ 1.389.835,47 recebidos em 2025. A análise mensal de seus contracheques revela oscilações que chegam a impressionantes R$ 79 mil entre meses consecutivos: em julho, o valor atingiu R$ 153.959,95, enquanto em junho caiu para R$ 74.820,10.
Em segundo lugar aparece o delegado-geral adjunto Rodrigo Bastos da Silva, com R$ 1.148.968,74. A terceira posição é ocupada pela delegada-geral da Polícia Civil, Daniela Silveira Maidel, com R$ 1.090.150,67 – a maior remuneração entre as mulheres e a única a ultrapassar a marca de R$ 1 milhão no ranking feminino.
Completando o top 5, aparecem o diretor metropolitano Wagner Bassi Junior (R$ 1.067.741,50).
Variações de até 179% em um ano levantam questionamentos
A reportagem identificou variações mensais alarmantes nos vencimentos dos delegados, que merecem esclarecimentos da corporação. O caso mais extremo é o de Frederico Muniz: saltou de R$ 52.753,95 em janeiro para R$ 147.244,60 em dezembro – um aumento vertiginoso de 179% em doze meses.
O delegado Walter de Melo Fonseca Junior apresentou a maior amplitude em valores absolutos: recebeu R$ 164.792,74 em dezembro, mas apenas R$ 60.149,08 em fevereiro – uma diferença de R$ 104.643,66 que representa 174% de variação.
Rafael Mendes Scatolon registrou padrão similar, com pico em dezembro (R$ 157.277,43) e valores na faixa de R$ 53 mil nos primeiros meses do ano. Luiz Henrique Damasceno teve oscilação de R$ 60.542,65 em janeiro para R$ 137.296,55 em dezembro.
As oscilações são particularmente acentuadas no mês de dezembro, quando praticamente todos os delegados registraram seus maiores vencimentos do ano. Isso sugere o pagamento de gratificações, décimo terceiro proporcional acumulado, férias-prêmio, diárias retroativas ou outras verbas que não constam discriminadas nos documentos obtidos pela reportagem.Já a delegada-geral Daniela Silveira Maidel manteve valores mais estáveis ao longo do ano, com oscilações menores entre os meses, variando entre R$ 70 mil e R$ 109 mil mensais.
Concentração de poder: 81% dos cargos estratégicos são masculinos
A distribuição dos cargos de comando revela um dado preocupante sobre equidade de gênero na corporação: dos 21 cargos de liderança identificados, 17 (81%) são ocupados por homens, que concentram as principais diretorias operacionais da Polícia Civil.
O delegado Walfrido Franklim do Nascimento, que dirige a estratégica Diretoria do Interior – responsável por todas as delegacias fora da região metropolitana –, recebeu R$ 1.037.640,14. Fausto José Freitas da Silva, à frente da Academia de Polícia, responsável pela formação de novos agentes, embolsou R$ 1.028.779,69.
Jesset Arilson Munhoz de Lima, no posto-chave de corregedor-geral, encarregado de investigar desvios de conduta dentro da corporação, recebeu R$ 1.002.909,40. Juliano Silva de Carvalho, diretor de Inteligência, área sensível que coordena operações sigilosas e investigações complexas, teve vencimentos de R$ 1.000.847,56.
Carlos Francisco de Moraes, coordenador de Gestão de Pessoas, responsável por toda a política de recursos humanos da instituição, recebeu R$ 965.399,03. Fernando Vasco Spinelli Pigozzi, ouvidor da corporação, canal de denúncias e controle externo, embolsou R$ 846.496,56.
Mulheres ausentes das áreas operacionais
Dos 21 cargos de comando analisados, apenas quatro são ocupados por mulheres: Daniela Silveira Maidel (delegada-geral, R$ 1.090.150,67), Ana Paula de Faria Campos (Diretoria de Administração Sistêmica, R$ 1.007.527,87), Mariell Antonini (R$ 888.834,13) e Juda Maali (R$ 800.893,18).
A sub-representação feminina se torna ainda mais evidente quando se observa que mulheres estão completamente ausentes das diretorias operacionais e estratégicas: nenhuma mulher comanda a Diretoria do Interior, Diretoria Metropolitana, Diretoria de Inteligência, Corregedoria-Geral ou Ouvidoria.
A única diretoria comandada por uma mulher é a de Administração Sistêmica, área tradicionalmente considerada de apoio administrativo, não de operações policiais. As delegadas Mariell Antonini e Juda Maali, embora recebam remunerações superiores a R$ 800 mil anuais, não têm cargos de diretoria identificados nos documentos analisados.
Essa ausência de mulheres em postos operacionais estratégicos levanta questionamentos sobre os critérios de nomeação e as políticas de equidade de gênero da instituição.
Ranking completo
Confira a lista completa dos 21 delegados por valor total recebido em 2025:
1. Vitor Hugo Bruzulato Teixeira (Secretário de Justiça e Segurança Pública) - R$ 1.389.835,472.
Rodrigo Bastos da Silva (Delegado-geral Adjunto) - R$ 1.148.968,743.
Daniela Silveira Maidel (Delegada-geral) - R$ 1.090.150,674.
Wagner Bassi Junior (Diretoria Metropolitana) - R$ 1.067.741,505.
Walfrido Franklim do Nascimento (Diretoria do Interior) - R$ 1.037.640,147.
Fausto José Freitas da Silva (Academia de Polícia) - R$ 1.028.779,698.
Ana Paula de Faria Campos (Diretoria de Administração Sistêmica) - R$ 1.007.527,879.
Jesset Arilson Munhoz de Lima (Corregedor-geral) - R$ 1.002.909,4010.
Walter de Melo Fonseca Junior - R$ 1.001.709,7011.
Juliano Silva de Carvalho (Diretoria de Inteligência) - R$ 1.000.847,5612.
Carlos Francisco de Moraes (Coordenadoria de Gestão de Pessoas) - R$ 965.399,0313. Mario Demerval Aravechia de Resende - R$ 910.902,2214. Frederico Muniz - R$ 900.121,0715.
Mariell Antonini - R$ 888.834,1316.
Rafael Mendes Scatolon - R$ 879.463,7117.
Fernando Vasco Spinelli Pigozzi (Ouvidoria) - R$ 846.496,5618.
Luiz Henrique Damasceno - R$ 829.445,2319. Juda Maali - R$ 800.893,1820.
Gianmarco Paccola Capoani (Assessoria Institucional) - R$ 776.717,9021.
Carlos Augusto do Prado Bock (Chefe de Gabinete) - R$ 773.824,83Total geral: R$ 20.862.710,45
Falta de transparência na composição salarial
A análise detalhada dos contracheques levanta sérias questões sobre a transparência na composição salarial dos cargos de comando da Polícia Civil. As variações mensais superiores a 100% em diversos casos – chegando a 179% no caso de Frederico Muniz – sugerem o pagamento de gratificações, horas extras, diárias ou outras verbas que não constam discriminadas nos documentos obtidos pela reportagem.
Onze delegados ultrapassaram a marca de R$ 1 milhão em vencimentos anuais. Entre eles, apenas duas são mulheres: a delegada-geral Daniela Silveira Maidel (R$ 1.090.150,67) e a diretora de Administração Sistêmica Ana Paula de Faria Campos (R$ 1.007.527,87).
A menor remuneração registrada foi de Carlos Augusto do Prado Bock, chefe de gabinete, com R$ 773.824,83, enquanto a maior foi do secretário de Justiça, Vitor Hugo Bruzulato Teixeira (R$ 1.389.835,47) – uma diferença de R$ 616.010,64 entre o topo e a base da lista.
Equidade de gênero em questão
A disparidade entre homens e mulheres, embora possa estar relacionada ao tempo de carreira e aos cargos ocupados, merece esclarecimentos da corporação sobre os critérios de nomeação para postos estratégicos e a política de equidade de gênero na instituição.
Chama atenção o fato de que nenhuma mulher ocupa cargos operacionais estratégicos como as diretorias Metropolitana e do Interior, que concentram as principais operações policiais do Estado. A Diretoria Metropolitana coordena as delegacias de Cuiabá e Várzea Grande, região que concentra aproximadamente 40% da população estadual. Já a Diretoria do Interior responde por todas as delegacias das demais 142 cidades de Mato Grosso.
Também não há mulheres na Diretoria de Inteligência, responsável por operações de alta complexidade e investigações sigilosas; na Corregedoria-Geral, que investiga desvios de conduta de policiais civis; ou na Ouvidoria, canal institucional de denúncias e controle externo da corporação.
Até o fechamento desta edição, a Polícia Civil não forneceu retorno às solicitações de esclarecimento enviadas pela reportagem.
Os dados foram compilados a partir de documentos oficiais de folha de pagamento da Polícia Civil de Mato Grosso referentes ao período de janeiro a dezembro de 2025.
DADOS CONSOLIDADOS:
• 21 delegados ocupam cargos de comando na Polícia Civil de MT
• R$ 20,8 milhões foi o total pago em 2025
• R$ 993.462,40 é a média salarial anual por delegado
81% dos cargos de comando são ocupados por homens (17 de 21)
• 19% dos cargos de comando são ocupados por mulheres (4 de 21)
• 6,2% é a diferença salarial média entre homens e mulheres nos cargos de comando
• 0% de mulheres nas diretorias operacionais (Metropolitana, Interior, Inteligência)
• 179% foi a maior variação salarial individual em um ano (Frederico Muniz)
11 delegados ultrapassaram R$ 1 milhão em vencimentos anuais
• 2 mulheres entre os 11 que ganham mais de R$ 1 milhão por ano
OUTRO LADO -
Por meio de nota, a Polícia Civil se limitou a informar que o detalhamento dos valores que compõem os subsídios dos servidores da instituição está sempre disponível no portal da transparência do governo estadual (https://www.transparencia.mt.gov.br/), que reúne informações sobre a remuneração de todos os servidores públicos de Mato Grosso.
Segundo a nota, as diferenças de pagamento entre servidores podem decorrer de diversas circunstâncias, como indenização de férias, variação de remuneração entre cargos e classes da carreira policial, além de outras situações.
A Polícia Civil sugeriu ainda que questionamentos mais detalhados sobre o tema sejam direcionados à Secretaria de Estado de Planejamento e Gestão (Seplag), órgão responsável pela folha de pagamento de todos os servidores públicos estaduais.